terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Das coisas mais doces

I wish I was your favorite girl,
I wish you thought I was the reason you are in the world
I wish my smile was your favorite kind of smile,
I wish the way that I dress was your favorite kind of style



Música escrita por quem já se apaixonou se torna evidente. Gostava daquela, uma melodia triste embalada por uma voz doce, voz de quem falava com propriedade. Quando a gente ama, quase sempre quer ser amada de volta – não conhecia exceção à regra, mas gostava de manter a exceção devidamente salva, para que não pudessem reclamar e precisasse argumentar em defesa de sua escolha de palavras. Sabia que, ao menos, seu amor era do tipo que queria retorno, na forma que viesse; seu amor era puro, era bonito; ela se orgulhava do amor que costumava sentir pelas pessoas, que só desejava um pouco de carinho, mas não precisava vir da mesma forma ou mesmo grau. A música, no entanto, agora lhe soava como uma confissão que não podia fazer nem a si mesma. A música lhe apontava um dedo imaginário e a fazia pensar no rosto que queria ver, na moça que estava esperando. a voz doce cantava sobre querer ser amada em detalhes – como que soubessem tudo que ela pensava sem que precisasse falar. Sim, precisar falar era um enorme problema. Com ela, precisava e não precisava falar. Ela tinha a mania – sem dúvida, vagamente incômoda – de tentar adivinhar as coisas. Era adorável quando estava errada, mas perturbador quando estava certa. Ela fazia perguntas que não eram fáceis de responder. Nunca queria que ela as fizesse; agora, no entanto, um sentimento rebelde se aflorava nela, lhe fazia desejar ouvir uma pergunta direta, certeira, clara – “você está apaixonada por mim?” ou “você me ama?”. A pergunta que não viria, porque nenhuma das duas teria como lidar com a resposta. As coisas eram difíceis; com as duas sendo do jeito que eram, também não havia jeito de melhorarem. A música parecia durar uma eternidade; quando se para para prestar atenção à letra, toda música parece dobrar de tamanho, se abrir como um livro para que a gente se pergunte como nunca tinha notado aquelas coisas antes. Agora, perguntava-se não exatamente como nunca havia percebido, mas por que se obrigava a fingir que a música não parecia ser escrita por ela. Queria que ela perguntasse para que pudesse dizer: sim, eu te amo, quero estar com você, queria que as coisas fossem mais simples – queria não complicar – queria que você me amasse de um jeito pedestáltico e que fizesse as pessoas acharem esquisito – queria me sentir terrivelmente sufocada – queria que seu amor me desse uma segurança tamanha que jamais me passasse pela cabeça você não me retribuir. As palavras atravessavam a sua mente como se fossem água transbordando. Mas, quando ela chegou, sorriu timidamente e beijou-a de leve nos lábios, torcendo um pouco para que ninguém visse e, se visse, não fizesse cara feia. Entrelaçaram os dedos quase ao mesmo tempo e foram andando enquanto chovia. Parecia estar sempre chovendo naquele verão. A música que tocava já era outra. Seu amor continuava lhe parecendo, apesar de tudo, doce e despretensioso. A presença dela parecia dizer que ela merecia todo o amor do mundo, viesse como viesse. E admitir que o desejava suavizava seus anseios; agora que havia dito para si mesma que sim, a amava, a despeito das últimas semanas ou meses em negação, as coisas pareciam não mais fáceis, mas mais lidáveis, mais contornáveis – se ela podia estar tão apaixonada, tudo podia ter conserto, pensava, numa lógica questionável.

4 comentários:

Bruno Melo disse...

Eu poderia assinar isso, se não tivessem tantos pronomes femininos, e alguns trechos.

Ferfa disse...

daora que ou cê lê, ou cê ouve a música, as duas coisas ao mesmo tempo é choro instantâneo dá pra enxergar nada.

bruna disse...

nossa, eu me identifiquei afu com isso. a situação em si. principalmente: “você está apaixonada por mim?” ou “você me ama?”. A pergunta que não viria, porque nenhuma das duas teria como lidar com a resposta. As coisas eram difíceis; com as duas sendo do jeito que eram, também não havia jeito de melhorarem.

Samantha Cevidanes disse...

you will never lose me to the wind ♥