Uma vez eu estava andando no centro com uma amiga minha que — bem, veja, essa parte é relevante. É que ela é uma das pessoas mais bonitas que eu conheço. Menciono principalmente porque foi por isso que comecei a falar com ela; achei muito bonita, vi a foto na internet, começamos a conversar, etc. Enfim. Estávamos andando no centro, estava chovendo, estávamos com uma amiga dela, estávamos conversando... quando um cara para na frente dela, especificamente dela, e diz tu é muito feia, porra. Do nada. Acho desnecessário dizer que já acho isso gratuito independente da situação — por diversos motivos, que vão de feminismo a pura e simples educação. Ela parou, olhou pra ele e respondeu “Eu sei”. Quando o cara virou pra ela e falou isso, eu já fiquei puta da cara. Porra. Tu não faz isso. Tu simplesmente não faz. Tu não sabe das outras pessoas. Falar pelas costas já é ruim, mas pelo menos é melhor porque a pessoa está escusada de lidar com isso (geralmente, ao menos). Mas aí ela disse aquele “eu sei” e acho que foi uma das coisas mais tristes que já ouvi alguém dizer. Foi um “eu sei” de estou ouvindo isso há anos. De já me falaram tanto isso que já estou plenamente convencida. De nem que vinte mil pessoas resolvam me convencer do contrário elas vão conseguir. De amigo, não tem mais jeito, nem me abala mais — não superficialmente, é claro, apenas ajuda a cimentar algo que já estava lá, e por mais que não me piore só torna mais difícil um dia acreditar que não é verdade. Não sei se deu na vista como aquilo me deixou, bem, não vou dizer abalada, não vou dizer nada além de... vaga, mal. Sei que coisa ruim entra rápido na cabeça e nem sei como sai, se é que sai; nunca aprendi. Eu não soube se ficava com raiva dos primeiros que disseram aquilo a ela, os primeiros que fizeram ela saber, ou do cara que foi lá do nada, sem ser chamado, sem ser provocado, sem ser nada, absolutamente nada, o cara que foi lá para piorar, colocar o dedo na ferida que não sei se já estava soltando casquinha, não sei se ainda capaz de continuar infeccionando, mas que, porra, desse jeito não vai sarar é nunca.
Eu estava bem. Acho que ela estava bem. Acontece um estupro em rede nacional, acontece uma lembrança que estava bloqueada, acontece uma provocação, e mesmo que eu continue bem — gosto de ver a imagem como um todo — vou precisar de mais anti-inflamatório e antibiótico.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
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2 comentários:
♥♥
Já ouvi esse tipo de "eu sei" saindo da minha própria boca.
E, quando acontece, a ferida ainda dói pra caramba.
♥
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