Eu tenho um primo ativista LGBT de esquerda muito maneiro cujo blog leio com alguma frequência. Não nos conhecemos, praticamente; falamos durante a infância apenas e depois de crescidos não nos vimos mais. Ele é como os outros ativistas que acompanho, exceto que somos parentes e por muitos anos acreditei que nada de revolucionário poderia vir da minha família, que ela era toda formada por partículas esquisitas e dissidentes. Por isso mesmo é tão incrível vê-lo militando pelas mesmas causas em que acredito. Se me dissessem há anos que eu teria coisas em comum com parentes, eu responderia "Aham, e um dia o Megaupload vai sair do ar por causa do FBI, também". Quem diria, não? Estava eu lendo o blog dele novamente e tem uma parte que releio até cansar: quando ele começa a contar de quando a avó dele desenvolveu Alzheimer e faleceu. Digo avó dele, mas na verdade é nossa avó, mãe do meu pai e mãe da mãe dele. Praticamente não a conheci. Jamais sonharia que ela foi um referencial em educação, respeito e autoridade - uso aqui as palavras dele, do meu querido primo. Eu pensava nela como... como nunca, na realidade. Só pensei nela quando ela morreu, e foi durante dois ou três minutos. Mas para o meu primo, ele, uma pessoa tão similar a mim, tão apaixonado pelas mesmas coisas que eu, com crenças tão admiravelmente parecidas, ela era incrível, ela era um comparativo, um referencial. Eu nem faço ideia de quem ela seja. Até ler as reminiscências dele, eu não sabia escrever o nome da nossa avó! Me faz pensar sobre as pessoas que conheço ou que penso que conheço ou que quero conhecer. Me faz pensar sobre o que acho que sei dos outros e do que acho que sei de mim e do que os outros acham que sabem de si mesmos e de mim.
Eu não estou conseguindo mais escrever sabendo que vou ter quem leia. É a coisa mais bizarra. Eu estou escrevendo, e muito, e sobre mim; algumas coisas boas, algumas coisas ruins, algumas coisas que não são nem um, nem outro... mas não estou querendo que haja plateia. Nunca houve muita, mas agora eu quero nenhuma. Quero escrever sobre os outros, também, mas não outros totalmente inventados; outros baseados em fatos reais. E resolvi escrever sobre isso, a avó que não faço ideia de quem foi mas que moldou alguém a ser parecido comigo em alguns aspectos. Fiquei lendo outros blogs e percebi algumas pessoas falando de experiências similares a algumas que estou tendo agora; elas nem fazem ideia. Estão lendo a si mesmas. Não estão erradas; alguém tem que fazer isso. Eu estou lendo a mim mesma, mas quero outras perspectivas. Se podem acontecer essas bizarrices... meu primo diz que tem muito para viver ainda, mas o dobro disso para escrever. E nós nem fomos criados juntos, veja você.
A recompensa da sexualidade feminina
43 minutos atrás
2 comentários:
Engraçado que me identifiquei principalmente com a segunda parte. Por mais que as vezes eu queira ser ouvida, tô evitando escrever alguma coisa relacionada a mim no íntimo quando sei que alguém vai ler. Talvez a gente precise guardar um pedaço do que somos pra nós mesmos, aquele pet escondido no condomínio. Talvez os segredos sejam o que nos une. Enfim. Sinto muito pela sua vó e espero que você e seu primo se aproximem.
por que desativou o formspring, júlia?
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