Um envolvimento com drogas, uma amizade com as pessoas erradas. A gente nunca pensa nisso na hora; tem gente que nunca chega a pensar nisso. Quem vê a notícia no jornal ou entreouve andando pelos prédios da faculdade entende que algo a gente fez; que execução não é feita sem motivo ou histórico. Sei que sexta-feira foi um dia lindo: não estava tão quente nos últimos dias, mas o sol ficou lá em cima, brilhando. Eu sempre soube a hora só de olhar pro sol; na real, acho que era mais coincidência, coisa de eu ter visto o relógio antes e adivinhado o tempo certo que havia passado. Na parte de trás da loja, tinha uma janelinha bem no alto da parede. O sol entrava torto, uma sombra assim meio oblíqua, não sei direito. Eu não estava pensando no sol, é lógico. Ninguém está casualmente filosofando nos seus últimos momentos de vida. Eu, é claro, penso muito na sociedade e no que quero pra ela. Sempre estou pensando no movimento estudantil, na minha faculdade, na galera da História. Naquela hora, nem sei no que tava pensando; provavelmente no dinheiro do pai, em quando vencia a mensalidade... em merda, de certo, mas nenhuma merda assim bonita como questionar a posição relativa do sol. Sou guerreiro e não tenho tempo pra essas coisas. Não ando com tempo pra nada. Quando eu reparo na luz da sala, é porque entraram dois caras. Eu os conheço. Não sei de onde. Talvez eu deva dinheiro de droga. Talvez tenha a ver com meu pai ter prendido alguém ligado a eles. Não é negócio ter pai policial e morar numa vila dessas. Talvez seja minha culpa, talvez não; a gurizada que falou sobre isso (pouco, porque eu ainda não era muito conhecido) que julgue, mas eu não acho, se me permitem aqui, se posso fazer comentário sociológico bem agora, que algo justifique. Eles chegam em mim e me mandam ajoelhar no chão. Meu irmão ainda é um guri. Quando virem que um gurizão de vinte e poucos anos morreu, todo mundo vai cagar; mas meu irmão é novo demais e isso eu não admito. Mas me ajoelho igual; sei que não é caso de se apiedarem, seja por droga, seja por vingança. Meu irmão se ajoelha também e, como eu, encosta a testa nas pernas. Estamos tremendo. Um dos caras encosta a arma de cano fino no topo da minha cabeça. Eu não sinto o metal frio. Eu não sinto mais meu irmão, não sinto o cheiro daquela loja, não sinto nada. Não sei o que eles falam, nem tenho certeza de que tenham falado alguma coisa. Meu irmão é um guri, como alguém tem coragem de uma crueldade dessas? Encostar uma arma na cabeça de um guri, de dois guris - porque eu sou novo demais também. É contra isso que eu queria lutar, e isso me passa pela cabeça de raspão. Ouço o disparo, e essa parte é interessante, porque eu não deveria ter ouvido o disparo; meus tímpanos deveriam ter estourado. A bala perfura minha cabeça como se só tivesse papel ali. Falam depois em pelo menos um tiro na cabeça. É difícil acreditar que durante vinte e dois anos uma coisa tão frágil protegeu meu cérebro e minha vida: o osso se esfarela feito bolacha e a bala fica ali, crava no chão, aos meus pés. Meu irmão vai depois. O que a gente pensa quando morre? Queria dizer algo bonito: que a gente pensa na luta, que a gente pensa na vitória, que a gente pensa no irmão, na família, nos que ficam, na vida que nos deixou, nas chance que a gente não teve. Mas eu ainda não sei. Acho que morri antes de poder saber. A maior notícia sobre o assunto tem sete linhas e a missa é amanhã.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Cê não sabe como é
às
23:59
Um envolvimento com drogas, uma amizade com as pessoas erradas. A gente nunca pensa nisso na hora; tem gente que nunca chega a pensar nisso. Quem vê a notícia no jornal ou entreouve andando pelos prédios da faculdade entende que algo a gente fez; que execução não é feita sem motivo ou histórico. Sei que sexta-feira foi um dia lindo: não estava tão quente nos últimos dias, mas o sol ficou lá em cima, brilhando. Eu sempre soube a hora só de olhar pro sol; na real, acho que era mais coincidência, coisa de eu ter visto o relógio antes e adivinhado o tempo certo que havia passado. Na parte de trás da loja, tinha uma janelinha bem no alto da parede. O sol entrava torto, uma sombra assim meio oblíqua, não sei direito. Eu não estava pensando no sol, é lógico. Ninguém está casualmente filosofando nos seus últimos momentos de vida. Eu, é claro, penso muito na sociedade e no que quero pra ela. Sempre estou pensando no movimento estudantil, na minha faculdade, na galera da História. Naquela hora, nem sei no que tava pensando; provavelmente no dinheiro do pai, em quando vencia a mensalidade... em merda, de certo, mas nenhuma merda assim bonita como questionar a posição relativa do sol. Sou guerreiro e não tenho tempo pra essas coisas. Não ando com tempo pra nada. Quando eu reparo na luz da sala, é porque entraram dois caras. Eu os conheço. Não sei de onde. Talvez eu deva dinheiro de droga. Talvez tenha a ver com meu pai ter prendido alguém ligado a eles. Não é negócio ter pai policial e morar numa vila dessas. Talvez seja minha culpa, talvez não; a gurizada que falou sobre isso (pouco, porque eu ainda não era muito conhecido) que julgue, mas eu não acho, se me permitem aqui, se posso fazer comentário sociológico bem agora, que algo justifique. Eles chegam em mim e me mandam ajoelhar no chão. Meu irmão ainda é um guri. Quando virem que um gurizão de vinte e poucos anos morreu, todo mundo vai cagar; mas meu irmão é novo demais e isso eu não admito. Mas me ajoelho igual; sei que não é caso de se apiedarem, seja por droga, seja por vingança. Meu irmão se ajoelha também e, como eu, encosta a testa nas pernas. Estamos tremendo. Um dos caras encosta a arma de cano fino no topo da minha cabeça. Eu não sinto o metal frio. Eu não sinto mais meu irmão, não sinto o cheiro daquela loja, não sinto nada. Não sei o que eles falam, nem tenho certeza de que tenham falado alguma coisa. Meu irmão é um guri, como alguém tem coragem de uma crueldade dessas? Encostar uma arma na cabeça de um guri, de dois guris - porque eu sou novo demais também. É contra isso que eu queria lutar, e isso me passa pela cabeça de raspão. Ouço o disparo, e essa parte é interessante, porque eu não deveria ter ouvido o disparo; meus tímpanos deveriam ter estourado. A bala perfura minha cabeça como se só tivesse papel ali. Falam depois em pelo menos um tiro na cabeça. É difícil acreditar que durante vinte e dois anos uma coisa tão frágil protegeu meu cérebro e minha vida: o osso se esfarela feito bolacha e a bala fica ali, crava no chão, aos meus pés. Meu irmão vai depois. O que a gente pensa quando morre? Queria dizer algo bonito: que a gente pensa na luta, que a gente pensa na vitória, que a gente pensa no irmão, na família, nos que ficam, na vida que nos deixou, nas chance que a gente não teve. Mas eu ainda não sei. Acho que morri antes de poder saber. A maior notícia sobre o assunto tem sete linhas e a missa é amanhã.
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5 comentários:
Porra Julia <3
Porra Julia <3 [2]
Porra, Julia. Só... Porra. O final acabou comigo.
porra!
seus textos são incríveis e dolorosamente realistas. <3
HAHAHAAHA Engraçado ver os comentários das pessoas ai, era EXATAMENTE oq eu ia falar também... Puta merda que texto!
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