Teve uns dias no meu antigo trabalho em que eu ia pra lá como se estivesse condenada a algo horrível. Eu sentava no prédio próximo, acendia um cigarro e ficava ouvindo a mesma música repetidamente. A música variava com o dia, quase sempre uma a ver com raiva. Isso durou, acho, duas ou três semanas. Não estavam me pagando direito. Eu não andava, naquela época, pensando no futuro. Pensava no próximo dia 10. Pensava no ônibus lotado que ia pegar na volta pra casa. Pensava que ia passar as próximas cinco malditas horas na faculdade.
Não acredito em anos e disso acho que qualquer um sabe pelo menos um pouco. Mas se eu acreditasse diria que 2011 começou uma coisa meio sem forma nem futuro, uma construção abstrata, se possível for, de coisas absurdas: eu não queria morrer, mas não queria as coisas desse jeito, mas também não via como sair disso, mas não tinha energia pra sair disso. Depois esse ano foi se tornando como que uma coisa discernível. Eu passei a ter controle, coisa que nunca almejei e que nem sabia que poderia vir a ter.
Acabou de me ocorrer (escrevo muito sobre coisas que acabaram de me ocorrer) que não tenho escrito porque, quando eu precisava muito falar de mim mesma — porque não me conectava com meus sentimentos, porque não me enxergava como digna de palavras, porque não queria lidar com aquele rosto que me olhava de volta no espelho —, eu falava dos outros. Os outros que eu inventava, e cujas criações ainda me dão certo orgulho, um carinho distante como quando a gente lembra daqueles amiguinhos de infância que sem dúvida nunca sobreviveriam à vida adulta: meus personagens queridos, minhas criações tão amadas, minhas histórias tão cheias de amor, tão humanas, tão profundas pra mim mesma, tão confessionais que eu não tinha coragem de mostrar pra ninguém e quando mostrava não me imaginava olhando nos olhos de ninguém, como se tivesse entregue uma confissão meio noite na taverna feelings. Agora eu posso falar de mim mesma. Agora posso me encarar e a imagem que eu vejo refletida tem o rosto delicado, sardento, manchado, de ossos enormes, uma construção meio quadrada, boca pequena, olhos imensos — enfim, compõem algo que eu gosto, que vejo como belo, que amo e aceito não porque encaro há vinte anos, mas porque se visse alguém igual na rua diria "que bonita", e não dizia para mim mesma porque era eu mesma.
Agora que posso falar de mim mesma eu não consigo falar dos meus personagens.
Agora não preciso mais deles, mas não precisando me dá deles, do ato de contar histórias que não me aconteceram e talvez nem a ninguém, me dá saudade de inventar. Não sei se alguma vez precisei inventar, sei que ainda é parte de mim — sei disso como saberia, se perdesse a capacidade de falar minha língua materna, que meu idioma é o português. Sei que criar, escrever, expor, usar palavras a serviço dos meus sentimentos e das emoções que quero provocar em mim mesma, sei que todas essas coisas são pedaços meus e me compõem.
E parei de me preocupar com não conseguir usá-los.
É engraçado que meu blog pessoal tenha parado de ser atualizado porque comecei a me sentir bem para escrever sobre mim mesma e me expressar sem medo.
Nunca tenho expectativas para os novos anos a não ser, de uma maneira muito vaga, crescer e amar. Não posso reclamar de nada.
Feliz ano novo. ♥
Uma rodada de Wendy Brown pra galera, AEEEE!
2 dias atrás
4 comentários:
fico feliz ;-)
Então foi um bom ano ^^
♥
Eu gosto dessa mística que todo ano novo traz consigo. Como se ao virar a página no calendário tudo mudasse. Mesmo que não mude, acreditar nisso é gostoso.
Feliz ano novo! :*
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