domingo, 20 de novembro de 2011

A la volonté du peuple

Quando eu tinha uns nove ou dez ou onze, não estou bem certa, anos, houve que me acometeu uma condição chamada transtorno obsessivo-compulsivo. É relativamente conhecida hoje, e digo relativamente porque se entende transtorno obsessivo-compulsivo como gostar muito de ver as coisas organizadas e quem tem, teve ou terá essa condição descobre rapidamente que, se assim fosse, não seria uma condição e sim uma forma mais limpa e confortável de encarar as coisas.

O principal problema, e isso raramente vejo sendo comentado, é que quando eu tinha transtorno obsessivo-compulsivo duvidava de mim o tempo inteiro. Claro que não tinha trancado a porta, claro que precisava ir lá ver — uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Claro que não tinha lido a página 77, precisava ler novamente — uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Claro que não estava certa, claro que não estava bonita, claro que não estava em acordo com a realidade. O aspecto mais comum e do qual mais me lembro era essa sensação de estar flutuando, vamos assim colocar, numa realidade alternativa, num universo à parte, em que eu via as coisas mas não do modo como os outros as viam: eu me preocupava constantemente em ter certeza de que o que via como azul era azul de fato.

O termo em inglês pra isso é second-guess myself. Não sei como traduzir.

Sei que minha vida foi, desde então, uma sucessão interminável (ou talvez seja cedo para dizer interminável) de duvidar repetidamente de acontecimentos anteriores. Não, isso não está acontecendo. Não, eu só posso ter lido o número errado. Não sei se relacionado a isso, até hoje não consigo ler prateleiras, diferenciar esquerda de direita ou me localizar num lugar se eu tiver chegado nele no sentido contrário ao que costumava pegar. Definitivamente relacionado a isso, gosto de reler as minhas coisas: releio minhas respostas, releio meus textos, releio a mim mesma repetidamente — não quero arriscar dizer que obsessiva e compulsivamente, mas vá, arrisquemos, que não nos custa. Uma análise profunda e repetida com tabelas e prós-e-contras. Sempre falei que sou dada às praticidades. Gosto do que é fixo e imutável, e gosto de ver o que não é.

Sei que desde que as primeiras memórias começaram a se formar na minha cabeça — e até hoje não estou bem certa de muitos acontecimentos até meus doze, treze anos de idade, porque há um branco indiscernível nesse espaço — eu me encaro como uma prova objetiva com muitas opções.

E eu parei de escrever há uns meses.

Estou pensando no porquê agora e proponho a seguinte opção: eu parei de tomar os remédios que me foram recomendados porque não via lógica nem motivo; não entendia por que meu cérebro não podia ficar bom sem aditivos químicos; então, abandonei o que poderia ter sido uma cura mais rápida e indolor. A escrita sempre foi a cura mais rápida e indolor. A escrita, que era em terceira pessoa, distante, sobre pessoas imaginárias. Hoje eu as releio e, salvo uma ou outra, as vejo profundamente irreais; sim, sentimentais, sim, completas, sim, seres humanos excessivamente sensíveis escritos por um especialmente sensível, e de um jeito esquisito, ainda por cima, mas... mas irreais, intangíveis, especialmente porque ali estavam os meus sentimentos e traços que eu mesma não queria — ou podia — confrontar.

Eu afastei a cura porque a cura tornava as coisas mais fáceis.

Esse espaço passou por diversas transformações, todas que acho terrivelmente fúteis agora, mas que na época me pareciam vitais: de início eu não gostava de escrever com o texto justificado porque me fazia sentir que havia algo tornando meu texto padronizado, minha escrita misturada, uma coisa comum, sem vida; depois me pareceu que todo e qualquer texto deveria ser distante, um exercício estilístico, e pessoalidades aqui não seriam bem-vindas; depois que não poderia haver amor direcionado por aqui, pois meu amor pelas pessoas é tão vago e, me parece, estou aprendendo sempre da pior maneira (mas não sei se há alguma melhor), que diferente do delas por mim — não diferente querendo dizer inferior, mas diferente em essência, como pedra e madeira, a comparação da Catherine Earnshaw; então, que se algo viesse parar aqui tinha que ser sentimental e poético, tinha que vir da inspiração, não podia ser chamado, pois seria menos natural; por fim, e agora me parece a decisão mais sensata, entendo que ter escrito aqui, ter sido lida, ter sido distantemente amada, ter sido distantemente detestada, ter sido ignorada, ter sido visto como chata, me validou como ser humano, porque o meu rosto e os meus cabelos e a minha risada e a minha voz não me tornam coisa alguma, mas o que sai do que está dentro do meu rosto e o que causa a minha risada e o que eu profiro com minha voz. Se assim é, não faz sentido continuar fugindo, como sempre fugi, da intimidade e das verdades.

Eu continuo pensando em sentido, pró e contra, lista de racionalidades, comparações matemáticas, estatísticas, quadros. E por isso mesmo entendi que não preciso mais ser curada. O que eu preciso é viver. E uma coisa que me tocou desde muito novinha e desde que pude entender as coisas: para mim, viver é criar. Criar respostas a pessoas que queiram saber minha opinião, criar textos sobre pessoas que imagino, criar pessoas para imaginar, criar risadas e amor, até mesmo criar desprezo — não ligo para não ser amada, e não gosto, obviamente, de ser odiada, mas não posso evitar e eu mesma acabo englobando tudo isso na mesma cadeia de emoções.

Desde muito cedo aprendi a questionar todos os meus movimentos com uma paixão desde então nunca vista. Uma espécie de conselheira da rainha, quando a conselheira também governa. Mas, não sei se essa impressão faz sentido para mais alguém, é possível governar em anarquia; quando eu falava em ser rainha, jamais falei em ser rainha de qualquer outra coisa ou pessoa. Sou rainha de mim mesma e fiquei afastada do trono por motivos de rebeldia. E, com duas décadas de atraso, vou me celebrar com amor e perdão.

4 comentários:

Tangerina disse...

♥♥

Jack disse...

E eu acho que você voltou a escrever.

Anônimo disse...

Aehhh...

Lara disse...

Que texto bonito!