domingo, 16 de outubro de 2011

Starry starry night

Estava eu com o Henrique — o Henrique é um menino de quatro anos da escola onde trabalho e é uma das coisas mais queridas que já vi. Ele é todo carinhoso e engraçado. Gosta de ser o vilão nas brincadeiras. Tem uma embasbacante dificuldade de concentração. Vai ter no mínimo 1,80m de altura. Fiquei pensando assim: quatro anos não é nada, né. Nem há uma personalidade muito definida. Claro, dá para observar alguns traços. Ele vai ser o palhacinho do ensino médio, vai ser aquele cara que fica fazendo piadas com tudo que os professores dizem. Comecei a me ver projetando o futuro de algumas das crianças. Era nebuloso e distante, naturalmente, embora pudéssemos inferir uma ou outra coisa.

De repente, e juro que foi uma revelação ao mesmo tempo gritante e completamente passiva, fiz o raciocínio que tentarei descrever com o mesmo impacto que teve sobre mim: todo mundo é profundo. Eu vejo aquelas crianças durante seis horas por dia, cinco dias da semana, há alguns meses, e já posso apontar uma série de traços de marcas de profundidades nelas; são novinhas, sem muito o que dizer sobre, mas sei tanto instintiva quanto objetivamente que são indivíduos com universos próprios... e, se o são agora, quando mal sabem o alfabeto direito, como não o seriam depois de adultos? Fiquei pensando naquela coisa que eu sempre digo, do deserto de almas também desertas, onde uma em especial de imediato reconhece a outra, e percebi que há uma falha fundamental nesse raciocínio: o deserto é sempre relativo às almas, e só porque elas me parecem desertas numa visão míope e ilusória não significa que de fato estejam vazias.


Não fiz post de aniversário porque não vi sentido. Sabe quando tu tá tão reflexiva que paradoxalmente não consegue escrever? Mas é necessário. É como não querer tomar água ou comer. Não interessa a falta de fome.

As coisas têm mudado. Eu tenho amado muito mais do que o normal; e ao mesmo tempo muito do que era sinônimo de amor para mim se transformou em outra coisa; não sei dizer o que, sei apenas dizer que definitivamente não é amor, ou ao menos é uma face diferente e nova que ainda tenho que explorar. Sei que estou feliz; mas minha percepção das coisas sempre foi mais objetiva, uma lista de prós e contras, onde eu reconhecia muito mais dos primeiros que dos segundos.

Minha distração não é nem pode ser desculpa. Nada é desculpa para não escrever mais e para protelar tudo que exige essa faculdade. Mesmo que signifique apenas responder a um monte de coisas no Formspring ou anotar no celular as ideias que tenho durante o dia. Ficar sem criar dói. Acho que ando voltada para escrever coisas mais concretas e dissertativas, mas não é para isso que estamos aqui. É necessário ser sincera.

Ao contrário de tudo que me ensinaram na vida, todo mundo é profundo e ter descoberto isso agora me parece o sinal que faltava para o fim das desculpas que eu estava inventando para criar.

4 comentários:

Tai Ramos disse...

"do que era sinônimo de amor..." É AMAAAAAAAAAAAAAR (8).
E tu estando feliz é o que importa, sabe aquela parada de que tirando o improvável a solução mais simples é a correta? Então talvez nem precise de nome o que você esteja sentindo. Talvez o negócio seja levar mesmo.
E criar, sempre.

Pam Lima disse...

Tu continua sendo uma crítica literária admirável. E eu acho que felicidade não é algo racional. Se tu tá bem, então tu tá bem. Tautológico assim.

Jack disse...

baby, if you're going to create...

Bianca Caroline disse...

:)