Eu não deveria me surpreender com vaidade, convencida que estou de que vaidade é um traço que dividimos todos. Mas, é claro, me surpreendi; me surpreendi porque vaidade assim, confessa e clara, é coisa raríssima. Também me surpreendi porque quando li algo que me pareceu tão íntimo, essa confissão. Ela é melhor nisso do que eu, que me confesso em código e meias palavras, portanto arruinando todo o propósito.
Penso o tempo todo sobre as outras pessoas, e imagino que da mesma forma que críticos pensam sobre personagens de filmes e livros: mais análise do que observação casual. Pensei, quando li, que eu escreveria tanta coisa sobre ela! Pensei que
bright em inglês quer dizer tanto inteligente quanto brilhante, brilhante no sentido de brilhar mesmo, como as estrelas, e pensei que brilho, ainda que em tese algo bonito, não de todo combina com ela porque ela é simples e — me parece — dificilmente vai atrair todas as atenções por méritos próprios; digo méritos próprios porque não aprendi que inteligência tenha qualquer relação com mérito. Pensei que isso deve ser uma sina para quem não foge desesperadamente da mais vaga menção a intimidade e confiança. Pra mim é de certa forma um alívio.
Mas também pensei que não fosse justo com ela, que é uma moça tão delicada. Gosto da palavra delicada para ela, delicada, que tem o mesmo número de fonemas e grafemas, que tem quatro sílabas de duas letras cada, que é uma palavra simples que sempre me fez pensar em pulsos e porcelanas; nas aulas de terça se fala muito de significante e significado, mas até hoje não encontrei ninguém que lesse o significado delicada e pensasse nos significantes pulsos e porcelanas; penso neles porque acho que associo a coisas que quebram facilmente, como aliás é o caso da delicadeza, que facilmente se racha e se quebra. Pensei que eu escreveria, se colega dela fosse, assim: delicada. Queria eu ter coragem para mostrar que sou tão delicada quanto. Pensando nisso, poderia escrever corajosa, mas seria um desserviço e uma injustiça. Seria pensar pouco, e acho (tanto quanto é possível achar sobre uma pessoa que você só conhece de ler poucas confissões) que seria preguiçoso pensar assim, e que não seria
pensar nela, em quem ela
realmente era.
Tentando fazer justiça à sua vaidade tão bonitinha e adorável, eu diria delicada.
3 comentários:
MAS QUE COISINHA MAIS FOFA.
nossa, que lindo
Tu é uma excelente analista/crítica literária, rainha ♥ E ver que tu pensou na resposta que daria na minha folha me emocionou ao ponto de fazer todo o meu dia melhor.
Uma vez eu escrevi um texto sobre uma colega minha que ela diz que é o patrono dela, que "afasta os dementadores". Obrigada por ter escrito o meu patrono :)
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