domingo, 18 de setembro de 2011

The Air Force Academy

Uma vez sonhei que estávamos andando abraçados e alguém nos parava pra dizer o seguinte: "Vocês são irmãos, né? Não adianta negar, dá pra ver de longe!". Logo depois a pessoa saía e continuávamos andando. Salvo engano estávamos em Porto Alegre, ou num lugar terrivelmente parecido com o centro daqui, ali pela Borges, mais pro lado do Mercado. Nós nos olhávamos e começávamos a rir, rindo assim olhando pro desconhecido. Quando acordei me pareceu que estávamos rindo do desconhecido, mas hoje, analisando os fragmentos que lembro do sonho (foi há pelo menos um mês), me parece que não era isso; que ríamos da simpatia, talvez. Algo era engraçado. Contei o sonho para ele por mensagem no celular. Não lembro se respondeu.

Estávamos sem poder falar direito. Senti falta dele como poucas vezes senti falta de alguém. Não sou muito boa nisso de sentir falta. O espaço entre nós estava se dilatando. Estávamos tão distantes que aos poucos a falta pareceu evaporar. As lembranças pareceram evaporar. Eu pensava nele e me vinha uma nuvem branca de vapor. Tenho uma coisa, não sei bem se talento ou doença, em que bloqueio tudo que é bom e tudo que é ruim, meio que obsessivamente. Me esqueci do sonho, fui lembrar esses dias.

Seguidamente me surpreendo com o poder da minha memória.

Lembrei que seu rosto tinha mais espinhas do que eu estava acostumada a tocar — também não sou de tocar nas pessoas, mas de qualquer maneira achei esquisito ao toque. Lembrei que Lilo & Stitch é o segundo desenho favorito do Thi, só perdendo pra Wall-E, e que ele teve certo ciúme do filme, por gostar tanto (o que, claro, eu achei muito bonitinho). Lembrei que pensei muitas vezes naquela cena de Brumas de Avalon: a Morgana com o Arthur nos braços, na barca, as brumas se fechando. Lembrei que as coisas parecem tão dramáticas às vezes, não é? Mas pensei que o toque do rosto de outra pessoa sob as minhas mãos era tão alienígena, e pensei que ter um momento cristalino e físico de amizade me era tão incomum que parecia que ia causar alergia... e pensei, por fim, que talvez, e só talvez, um pouco de drama fosse bom, fosse necessário — talvez tivesse vindo para apontar uma falha fundamental que carregamos conjuntamente. A ideia aqui era falar de um amigo apenas em terceira pessoa, como num conto,, mas a sua característica mais marcante no momento é algo que temos tão em comum que não mencionar seria absurdo.

As coisas vão melhorar, querido. Eu tenho dito tanto isso e pra tantas pessoas diferentes, mas nem é que acredite com tanto fervor: só sei que as coisas vão melhorar da mesma forma que sei que amanhã vou abrir os olhos. Acho que tem coisas que a gente simplesmente sabe e não tem razão de se preocupar. No fundo, sou a pessoa mais tranquila que conheço: não me preocupo com nada porque sei que tudo melhora e piora em tempos iguais e que as coisas se arranjam — se não se arranjarem, por isso mesmo é que estão solucionadas.

Só não sabia que nós éramos tão parecidos.



3 comentários:

Will Parry disse...

He wasn't prepared for Lyra's wide-eyed helplessness. He couldn't know how much of her childhood had been spent running about streets almost identical with these, and how proud she's been of belonging to Jordan College, whose Scholars were the cleverest, whose coffers the richest, whose beauty the most splendid of all. And now it simply wasn't there, and she wasn't Lyra of Jordan anymore; she was a lost little girl in a strange world, belonging nowhere.

Will Parry disse...

Obrigado, amor.

Julia disse...

"We have to be all those difficult things like cheerful and kind and curious and patient, and we've got to study and think and work hard, all of us, in all our different worlds, and then we'll build..."
"And then what? Build what?"
"The Republic of Heaven", said Lyra.