Quando eu era criança, não gostava da minha avó. Não sei quando foi que me contaram que ela tinha abandonado minha mãe e os outros filhos quando eles eram pequenos, mas lembro vagamente de não ter vontade de conhecê-la. Lembro quando a vi pela primeira vez; a filha mais nova dela, meia-irmã da minha mãe, estava fazendo quinze anos. Era estranho pensar que aquela senhora baixinha, gorda e frágil tinha um pouco do meu sangue, tinha segurado a minha mãe no colo e chamado de bebê. Minha mãe tinha sete anos, na época. Sempre foi pequena, pelas fotos, pequena e magricela. Minha avó, compreendi não muito depois, não tanto abandonou os filhos quanto fugiu de um universo que, francamente, ninguém nunca explicou na família; fala-se de um marido bêbado e com certo gosto pelo espancamento, mas ao mesmo tempo vejo meus tios e tias falando com carinho pelo pai e as imagens não se encaixam; por outro lado, acho que numa família desconjuntada as crianças tendem a ver tudo distorcido, e acabam amando até mesmo quem as fere. Ela foi morar com outro homem que ficou do lado dela, calculo, por quarenta anos. Quarenta anos, gente. E eu ouvia meu pai chamá-la de puta, por vezes. Ontem, eu sentindo a cabeça estourar e sem respirar direito, estava semi-adormecida jogando no DS quando de repente algo me despertou. Não foram exatamente as vozes na cozinha, porque aqui em casa todo mundo tem horários errados mesmo, não me impressionou ouvir uma conversa a uma da manhã de terça-feira. Mas senti de repente que precisava me levantar. Minha mãe estava chorando mansamente. É estranho ouvir que alguém que deveria significar tanto para você morreu. Acho que ela sentiu o mesmo, ainda que numa escala paralisante. Era minha avó, sabe? Me abraçou talvez três vezes na vida e mandava dizer, nas poucas conversas que me eram relatadas, que eu era muito linda, a cara mesmo da minha mãe. Não senti nada fora a surpresa. Ela ia fazer uma cirurgia em breve. Minha tia mais velha, a mais próxima, temia que acabasse por perder o útero. Ela pediu pra minha mãe comprar um pijama novo de aniversário (fez setenta há pouco), pra ela ficar no hospital. É estranho que ela tivesse planos para algo que melhoraria a vida dela e, perto da uma da manhã de uma terça-feira quase quente no final de julho, tivesse uma parada cardíaca. Era minha última avó viva. Quando perguntavam, especialmente meu sobrinho, se tínhamos avós, eu e meu irmão dizíamos que não: é uma história tão longa e tão complicada que é muito mais fácil deixar que as pessoas presumam que todos morreram do que admitir que não sentimos nada. Hoje a nossa evasão se tornou realidade. Não cheguei a conhecer o marido dela; morreu um ano antes de eu nascer, assim como o pai do meu pai. A mãe dele conheci, convivi um pouco, mas não sei em absoluto o que achava dela e nem sei se deveria achar algo, distante como era, e acho que posso até empregar a palavra misteriosa aqui, como o é aliás toda a família do meu pai. Acho que a minha avó sentiu remorso. Acho que os últimos quarenta anos devem tê-la impedido de dormir. Acho que a doença da insônia está mesmo nos cem anos de solidão dessa família. Acho que não acredito na morte como um descanso, porque pressuponho acordar com os músculos relaxados e com energia depois; acho que acredito na morte como o fim de diversos processos bioquimicofísicos e que se parece com muitas das minhas noites de sono: fechar os olhos e ficar meio suspensa e desperta durante algumas horas e você não realmente descansa, mas também não realmente acontece nada. Acho que a terra vai ser leve e que, mesmo se não tivesse chegado para cobri-la, não haveria tempo nem jeito de consertar o rumo que a vida tomou, para mim, para ela, para minha mãe, para os irmãos dela. Acho, claro, isso inenarravelmente triste, acho que eu gostaria de ter tido avós como a avó sorridente e simpática que por vezes vem buscar uma das minhas aluninhas favoritas, que fica extasiada de ver que vai passar a noite na casa dela. Eu gostaria, tenho certeza, de que as coisas tivessem sido muito mais simples para eles, que as histórias não fossem tantas e tão tristes, que os relacionamentos fossem mais remendáveis, que minha mãe pudesse chorar a perda da dela hoje porque os últimos quarenta anos teriam sido de tanto amor e presença que dar adeus a eles doesse, e que eu pudesse lamentar perder minha avó; talvez até quisesse poder lamentar outras perdas, mas não consigo. Vó, que o sono agora venha fácil e sem sonhos.
A recompensa da sexualidade feminina
59 minutos atrás

2 comentários:
Espero que a tua mãe fique bem. ♥
♥
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