Eu com dia do amigo sou que nem aquelas pessoas solteiras e amargas com dia dos namorados. Bem, mais ou menos. Não maldigo a data, até porque não tenho a desculpa de ser comercial ou qualquer merda, mas me dá uma sensação similar - um lance meio não sei que porra é essa e não entendo por que estão comemorando isso. Eu gosto das pessoas, gosto de verdade, mas tenho uma dificuldade magistral para me importar com elas. Quero vê-las bem, gosto das boas notícias, mas não me incomodo com as ruins, não penso nelas, não me comovo. Acho sinceramente que é o meu jeito de amar, rudimentar, concordo, mas é meu jeito e que é que eu vou fazer. Me parece perfeitamente normal essa espécie de insensibilidade acentuada. Não sei.
O meu problema, paradoxalmente, é similar ao dessa moça. Minha capacidade para o amor é gritante, enorme, tão terrivelmente evidente que - não tenho outra forma de dizer isso: francamente, me irrita. Me irrita porque não sei lidar, não estou acostumada, gosto do silêncio e da solidão mesmo, gosto de estar longe, e por todas essas coisas não sei fazer seus antônimos, não faço a menor idéia e talvez nem queira aprender. Veja que ontem um amigo de longa data que havia desaparecido completamente reapareceu. Posso estar deixando minha auto-estima sofrível analisar a situação errado, mas pra mim estava claro que essa volta do mundo dos mortos foi uma necessidade de falar com alguém e saber que eu seria a única que ouviria. É tão antigo isso, eu ser a única que ouve. Gosto de ouvir. Ouvir é fácil porque disfarça todas as falhas do meu amor e faz, de maneira egoísta, com que eu sinta que minha parte está feita. Bem, ouvir é mesmo tudo que eu consigo fazer. Uma vez alguém com quem não há mais laços de amizade ficou irritado comigo porque, quando falava algo triste, a minha única reação era dar um tapinha de leve na cabeça, como que carinhoso. Mas ouvir é meu limite, acho. Cara, essas merdas são muito difíceis, I'm too old for this shit.
Sabe quando a coisa mais certa sobre você é tão obviamente errada que é quase engraçado?
Essa sou eu com relacionamentos.
Esse amigo. Enquanto ele falava, e realmente a vida dele está uma merda e realmente sinto empatia, o que em si é um sentimento pouco profundo pra mim e portanto admirável quando surge com alguma força real, eu pensei que era essa a minha função na equação. Uma parede compreensiva, talvez. É minha função sempre, e posso imaginar vários motivos: meu horror a intimidade me impede de falar quando preciso, atraio gente mais pra egoísta do que pra de fato interessada numa troca, falta de sorte, talvez seja mesmo muito nobre da minha parte transformar relacionamentos em um monólogo e sempre preferir a platéia. Não sei, no fim. Não sei o que acho. Não faço idéia do que sinto a esse respeito.
Fui querida e compreensiva e pedi profusas desculpas quando saí pra me deitar e aguardar por algumas horas a visita do sono. Mas acho que o que veio foi muito cansaço.
Uma rodada de Wendy Brown pra galera, AEEEE!
2 dias atrás

1 comentários:
Curiosamente diferentes e mais curiosamente parecidas, nós duas.
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