Não era pra eu estar tão terrivelmente cansada ontem. Uma das crianças fez festa de aniversário lá na escolinha, de modo que o que mais me tomou energia durante o expediente foi ficar doentiamente feliz porque um amigo conseguiu o emprego mais foda da história. Mesmo assim, quando cheguei em casa, mais especificamente quando girei a chave no portão, senti como se tivesse 3atm de pressão atmosférica sobre a minha cabeça. Thiago me recepcionou pulando em cima de mim e fomos fazer comida juntos, eu nhoque, ele o molho, que ficou tão melhor que o nhoque que quase comi puro. Eu nem estava mais com energia pra ter fome. Deitamos na cama e uma velha amiga me cumprimentou. Oi, enxaqueca, como vai você. Apaguei todas as luzes num raio de um quilômetro e ficamos conversando baixinho por calculo que duas ou três horas. Acho que o cansaço todo e a dor em todas as partes do corpo sem exceção era um misto de princípio de enxaqueca, resfriado e ter ficado uns dias sem conseguir conversar direito com ele. Estamos com os horários todos trocados, ele acordado quando eu durmo, eu ficando totalmente sem sono quando ele já dormiu. Então ontem eu fiquei no colo dele e a gente falou tanto de tudo, e tudo ficou subitamente mais fácil. Não sei como ele faz isso mas, talvez por muitas das respostas dele terem sido variações de "eu entendo", eu comecei a sentir um sono bom e dormir em paz. Eu nunca tenho sono, sono nunca é bom, e eu nunca durmo em paz. Às vezes, velho, as coisas fazem tanto sentido. Sou daqueles seres humanos impossivelmente chatos que encaram tudo como fórmula matemática, ciência exata e lei zero da termodinâmica, de modo que pra mim as coisas
precisam fazer sentido, e de repente elas... só fazem.
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