sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Dancing with you all

Eu estou viva, bem e escrevendo. Mas a maioria das coisas que escrevo não me parecem postáveis, repassáveis ou mesmo discutíveis. É por isso que aqui está vazio. Eu realmente não tenho nada para dizer. Encontrei pessoas interessantes, tive pensamentos interessantes, ouvi e senti coias certamente bonitas. Mas o blog não está combinando com isso, não está encaixando nisso. Não está destoando também. Só não faz parte. Ainda. Por enquanto. Ou não.

Esse blog existe há um ano e, antes dele, havia um livejournal. E um ano não é tempo demais, mesmo pra mim, mesmo pra minha idade. Um ano é um tempo ótimo para ficar escrevendo sobre os outros e melhorando.

Doze meses atrás eu não conseguia escrever originais. Seis meses atrás eu não conseguia dizer “ei, quer ler?” para quem já havia demonstrado acima de qualquer dúvida que queria ler. Quatro meses atrás eu achava que precisava muito das coisas que queria. E recentemente reparei que a maioria delas aconteceu! Eu não perdi dez quilos mas perdi cinco - e sem querer -, realmente me tornei vegana, comprei os sapatinhos e vestidos que queria, não fiquei rica mas também não estou sem o que comer, passei a escrever, passei a escrever muito, passei a confiar em mim mesma, e a poder dizer, em voz alta, caso seja esse o assunto, sim, porra, sou foda. Tudo isso sem nem notar acontecer (bem, eu notei que comprei os sapatinhos e vestidinhos. Melissa Glam fúcsia 34/35, anyone?). As coisas deram certo sem eu surtar. Elas sempre dão.

Não que o blog seja responsável. Mas me expor - e gente, isso me expõe demais, eu nunca me expus tanto antes, basta ser levemente observador para perceber o quanto cada ponto final diz sobre mim - dessa forma ajudou porque eu não pude mais fugir dessas verdades. Das pessoas que inevitavelmente fazem e farão parte da minha vida. Do fato que eu não sei, e nem pretendo saber, olhar pra alguém sem imaginar um imenso background, cheio de pichações e grafitagens, enorme e profundo como o meu. Eu sou o tipo de pessoa que ficou muito feliz de o vendedor da Patiller hoje ter me mostrado o tênis mais bonitinho que já vi, porque eu não ia me sentir legal de sair sem comprar nada depois de o cara ter sido tão legal. É trouxa. Não nego. Mas sou eu (e é o Thiago, por sinal; a idéia de comprar foi dele e eu sei bem que o vendedor pesou nisso. E o tênis ser muito bonitinho). Essa exposição descontrolada e desmedida não me deixa negar essa babaquice happy-go-lucky que existe em mim - e que, não duvido, é uma boa parte do que sou.

Talvez seja a idéia de que eu já me expus o suficiente que me deixou tão sem o que falar aqui. É provável. Mas, para o deleite de quem se diverte com a grifice alheia, e para o deleite de quem se identifica com ela, a serventia desse espaço branco numa caixa bege num fundo branco onde digito coisas e depois clico num botão laranja não tem fim. (Eu acho.)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Perdi os critérios

Aí eu estou de regatinha verde ouvindo Billie Jean, Take on Me e o que houver de brega na discografia do Queen.

Esses dias eu estava preocupada com não estar conseguindo escrever (eu sei, só tenho um assunto, é impressionante). Aí o Thiago disse que a minha inspiração era algo que vinha em círculos e eu não devia me preocupar; que dali a uns dias voltaria, e voltou.

Aí eu estava na Saraiva e tinha três vendedores super simpáticos - um deles com um gosto musical dos mais respeitáveis (Queen, The Killers) - e resolvi deixar currículo lá, just in case. Parece que contraram uma guria porque o cabelo dela era roxo, quem sabe o meu vermelho guerra-pela-independência-bósnia-herzegovina seja um diferencial.

Aí eu fiquei revendo vídeos do Ronald Rios e literal videos.

Aí eu percebi que me inscrever pra Letras Licenciatura foi uma falta do que fazer tão grande que nunca mais na vida vou reclamar de tédio. Claro que 30min depois eu não tinha nada pra ver na TV, já tinha lido todos os livros da casa e a internet estava uma merda, e eu reclamei de tédio de novo.

Me vi participando de um concurso pra ganhar uma Melissa, quase comprando um coletinho jeans na Renner e pensando em rever meu antigo colégio, onde estudei de 90 e algo a 2005 e pensei mas, Júlia, o que é isso, que porra é essa, toma controle da tua vida, sua doente.

Sério. Eu estou me deixando dominar por uma nuvem pesadíssima de falta de critérios.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O que eu tenho feito é escrever muito sobre caras que não existem. Tem uma história que pode ser facilmente ligada a essas aqui (que agora estão impressas e circulando por aí, na Conhecimento Prático Literatura, da Escala) e tem mais outras que envolvem pessoas que inventei na hora, com os fones no ouvido ou enquanto lavava a louça do almoço. Elas são todas baseadas em pessoas que existem e conheço, e em cenas que vi em algum lugar. Geralmente frutos de uma observação das mais férteis.

Eu também estava gastando algum tempo batendo com a cabeça na mesa, vendo vídeos idiotas no YouTube e tendo longas conversas com vários vendedores da Saraiva Iguatemi e com pessoas que precisam muito descobrir que tinta eu passo no cabelo.

E é o que eu tenho pra dizer aqui.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

dancing like i'm michael j. fox... with parkinson's says (22:13):
outra coisa que está agravando essas tendências de self-harm é o meu blog HAHAHAHAA
que vontade de deletar ele
aí criar ele de novo
só pra poder deletar mais uma vez



Mas eu não vou.

Não vou porque só teve duas coisas que comecei na vida e não peguei um ódio extremo e nauseante depois. Não vou porque o blog é só um reflexo de um sentimentro estranho que tem me feito companhia. Ele se parece muito com tédio, tem um ar de impaciência e cheira a uma ansiedade não-justificada. Não vou porque um endereço com poucos comentários e cerca de 45 visitas diárias não tem nada a ver com isso. Não vou porque eu não estou triste, eu estou bem! Muito bem, por sinal. Só que tem alguma coisa, que pelo visto não tem relação com os meus hormônios nem com os meus níveis de vitamina no sangue, que está me fazendo ficar mais apática, quieta, tensa, insensível, enjoada. Que não se deve ao blog, nem ao que eu escrevo, nem com ninguém. Acho que não tem nada a ver com a idade, nem com bullying — afora a minha intensa necessidade de aprovação e o meu pavor patológico de me expor para as pessoas. Acho que é só porque eu tenho um espírito meio revoltado. Eu não aceito muita coisa. E a principal é continuar quando tudo está uma merda.

Não que esteja.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Eu não tenho o que escrever aqui.

Ou desaprendi a falar da minha vida, não sei. Acho que comentar “tá tudo uma merda” ou “tá tudo fantástico” é mais fácil e me acostumei a fazê-lo e deixar as pessoas de fora dos motivos.

Mas eu tenho o que escrever em outros lugares. É o motivo pra estar tudo bem no momento.

sábado, 14 de novembro de 2009

All the king's horses

Ela não é o que você esperava, ela perguntou sem interrogação, ele fingiu que não ouviu. A verdade era dolorida; admiti-la era impensável. E fingiu que ela era exatamente o que esperava. Cada suspiro e cada fala abobalhada, torcida de mão incerta, olhar tímido. Tentou acreditar que seu amor platônico e enfeitado tinha motivos e que a jovem mulher que o encarara com uma tentativa de ternura não era a maior decepção que já enfrentara ou enfrentaria na vida. Ele andou para frente e não ouviu o que ela disse. Teve poucos segundos para decidir insistir, e decidiu. Talvez porque desperdiçara anos de sua vida naquela busca. Talvez porque não podia estar sozinho. Talvez porque aqueles olhos simpáticos e estrangeiros eram tudo o que tinha. Sinto muito, mãe. Dali a pouco ele passaria a odiá-la tanto que todo o amor que alimentara com tanto cuidado se dissiparia sem deixar rastros. Talvez fosse melhor não abrir aquela porta. A assistente olhou-o curiosa, como se entendesse; é possível que já tivesse visto tantos casos assim que não fosse surpresa. A frieza da assistente o ofendeu, ou deveria ter ofendido. Acho que devo simplesmente sair daqui e nunca mais encará-la, encará-las, e esquecer que finalmente a encontrei. Abriu a porta.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dancing with myself

Dia desses eu estava vendo um blog em que a moça dizia que estaria muito feliz, e citarei suas palavras, “trabalhando, estudando, malhando e sorrindo”. A repulsa foi tanta que senti meus níveis séricos de ferritina e cálcio caindo para o limítrofe inferior.

Eu tento, de verdade, achar um motivo para sorrir em pensar “nossa, trabalhar, aumentar meu conhecimento, dar duro pelas coisas que quero”. Bem. Talvez não tente. Talvez a simples idéia dessa felicidade comum e paupérrima me irrite tão profundamente que ficar uma semana no mais profundo estado de apatia me pareça uma excelente alternativa. Essa gente que superou suas dificuldades ficando 10 anos fazendo dieta, ou fazendo três faculdades, dois mestrados e um cursinho de alemão, me cansa. Eu não posso ser, honestamente, o único ser humano que espera um pouquinho mais da existência do que ter meias-calças tamanho P, uma coleção de diplomas, ser Ministra da Justiça e falar oito idiomas só pra dizer que falo, sem jamais entender a cultura e os pensamentos das pessoas que aprenderam essas línguas logo no nascimento.

Ou posso. Não sei.

sábado, 7 de novembro de 2009

Could have been



Talvez eu fosse mais magra, bulímica, mais restrita com a minha vida sexual, tivesse mais amigos com quem só dá pra discutir marca de cerveja e desse uma de intelectual no orkut. Talvez eu fosse mais gorda, não fizesse as sobrancelhas e fosse a manifestações pelos direitos de qualquer classe subjugada. Eu não sei o que seria de mim se muita coisa não tivesse acontecido. Se não fosse por tudo que ouvi e o que aconteceu. Não sei quais as variáveis que definem o que faz a gente ser assim, mas o que as crianças diziam e faziam comigo não fez nada além de destroçar completamente a confiança em mim e nas outras pessoas. Foi isso, embora isso em si tenha tido conseqüências, e eu me lembro mais do David jogando damas comigo (e perdendo) e das outras pessoas que também eram excluída até que as turmas mudaram, os anos passaram e aprendi a conviver com os outros, mesmo nunca indo nem remotamente diferente porque isso podia acarretar comentários e ninguém precisava menos de comentários do que eu. Acho que me recuperei tanto quanto é possível e tão bem quanto foi necessário, o que não é muito. Minha saúde sempre foi boa e eu faço bem o tipo de pessoa que pensa “eu preciso deixar esse mau humor de lado, porque com ele não dá pra perceber quando fizerem algo bom” e sorri. Não acho que mentir pra si mesmo seja sempre a pior mentira.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Um rápido brainstorming sobre estágios de vida

Uma coisa que sempre me chamou a atenção é como as pessoas resumem suas incertezas na palavra adolescência. Eu conheço pessoas que passaram dos "x-teen" há pelo menos o dobro da minha idade, ou às vezes apenas a minha idade, e passam por toda sorte de angústia, e acordam todos os dias pensando "de que caralhos me serve levantar dessa cama?". Os adolescentes angustiados que conheço são muito poucos e geralmente são os excluídos, os que sofrem bullying, os que podiam morrer e ainda assim só serviriam pra piadas póstumas. Se você entrar em qualquer sala de aula do país, o número de alunos que se encaixam nessas características dificilmente ultrapassa dois por sala. Lógico, eu sempre fui um desses dois ou três. E em qualquer sala ou escritório ou lugar do mundo é mais provável que eu me identifique primeiro com o Glee club do que com qualquer outra coisa. Não é uma coisa de adolescência, são as coisas que ocorreram durante ela e que vão ocorrer durante a minha vida. Vendo exemplos de pessoas que admiro indo dormir todos os dias pensando em tomar três vidros de calmantes pra ver se morrem, e sabendo que nenhuma delas tem mais treze anos, e sabendo que todas elas tiveram uma vida muito parecida com a minha e sentiram muito do que eu senti, eu teria que ser muito ingênua pra crer que sempre vou ser bem acolhida em todos os lugares, que vai bastar fazer vinte e um anos e toda a insegurança e a falta de confiança e mim e nos outros vão sumir. Isso não acontece. Isso não vai acontecer. Nunca vi uma única vítima de bullying que não fique até hoje se olhando compulsivamente no espelho, ou se pesando compulsivamente, ou tentando todos os dias ser melhor em alguma coisa — nunca vi uma vítima de bullying que não fique até hoje com aquilo tudo na cabeça e que não, de vez em quando, desabe e volte a sentir tudo que sentia na época. Desacredito firmemente que exista. Se alguém disser, é improvável que eu acredite. Não estou dizendo que sou infeliz, definitivamente não é o caso; mas eu ainda me olho, peso e tento ser melhor compulsivamente. E certamente não é algo que vai sumir quando a adolescência passar, porque adolescência é só um termo que os adultos frustrados inventaram para fazer de conta que não sentem o que sentem. É algo de que eu vou me livrar, um dia... talvez. Ainda tem um peso grande na minha vida e eu creio piamente que tem um peso grande na vida de todo mundo que já passou por isso. As pessoas têm uma facilidade irritante e condenável de diminuir tudo a palavras como "adolescência", "revolta" e coisas que pareçam transformar todos aqueles sentimentos, que todos sabem ser reais, numa gosma incoerente de inutilidade. Mas a maioria dos adolescentes que conheço está muito feliz planejando festas, e talvez só não exponham o que sintam, porque devem senti-lo, é possível que ninguém se sinta um fracasso o tempo inteiro?, porque estão ocupados humilhando os outros, ou porque sabem exatamente como serão rotulados se falarem algo; não sei.
Não sei mesmo.
Não estou respondendo a nada, nem a ninguém. Só me ocorreu enquanto eu anotava umas coisas no meu caderno novo — que pedi pro Thiago trazer pra mim na volta da faculdade porque eu precisava de um lugar pra me obrigar a escrever quando o computador estivesse indisponível. Eu espero que isso funcione. Tem funcionado. Me ocorreu o post porque eu estava querendo apagar tudo que rabiscava no caderno. E não era nada ruim. Eu não sei se acredito que escrevo coisas ruins. O que sei é que é automático pensar que está uma merda porque me fiz acreditar, com toda a fé que havia em mim, que eu não valia o esforço nem era capaz de produzir algo bom. E, embora não eu seja fácil de convencer, isso não custou muito.
Não sei. Não sei mesmo.

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Acho escrever na terceira pessoa sobre mim uma espécie de covardia. Uma espécie, porque paradoxalmente as pessoas sempre desconfiam que a terceira pessoa é sobre você; mas, se estiver em primeira, fica a dúvida. É tão difícil alguém simplesmente falar "senti isso e isso", então, se está na primeira pessoa, é mais provável que seja ficcional. Eu nunca escreveria sobre mim mesma na terceira pessoa.

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Eu dou satisfações porque sinto vontade, ou me sinto à vontade, ou sinto necessidade. Dar satisfações é uma opção minha. Como o blog é meu, como o que é escrito nele é escrito pelas minhas mãos, e nunca aconteceu de ninguém apontar uma arma pra minha testa e dizer "dê satisfações!", creio que se torna irrevogavelmente claro que, se há satisfações, eu as dei por opção. Às vezes, as pessoas precisam, e muito, compreender que apontar o óbvio só deixa evidente que elas não absorveram nada. Ninguém dá satisfações se acha que as pessoas o entenderam; e, acreditem, as pessoas raramente se entendem. Nem eu a elas, nem elas a mim, nem vocês a vocês. Estou sendo arrogante até em conceder a possibilidade de, às vezes, a gente se entender.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Greatest hits

Estava havia muitas horas tentando tirar uma boa fotografia. A câmera escorregava suada em seus dedos – mas talvez fosse a tinta que não secava, a mistura que não ficava boa, a caneta que falhava, a comida que queimava, as plantas que murchavam, o cheiro de perfume que era insuportável no ar, o nada que ficava perfeito, o não saber imitar o que havia de bonito no mundo e quando soubesse perceberia que era só uma reles imitação, que seria tirado do ar, direitos autorais de outra pessoa, infração de copyright. Sentiu-se e sentia-se engolfada, o nível de água invadindo toda a terra, metros e metros perdidos, submersos, imersos, arrastados pela correteza para longe, inalcançavelmente longe. Largou tudo que fazia, que na realidade era uma coisa só, mas eram várias, eram muitas, era ela inteira, era todo o seu corpo. Largou tudo o que fazia e deixou-se escorregar em direção ao chão, numa queda livre dada pela altura e aceleração da gravidade e a infindável tabela dos cosenos de todos os ângulos inexistentes do movimento uniformemente acelerado sem resistência, pôs as mãos sobre os olhos e não sabia se ia conseguir chorar – deus, ao menos isso, isso você me deve. As lágrimas escorreram e ela permaneceu ali pelo resto da noite.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O conto do stalker

É bom ver que você tem amigos que te façam feliz, oh, é bom ver você feliz. Você não sabe quem eu sou mas eu sei o seu telefone, as suas fotos e que na terça passada você estava na Rua da Praia procurando uma das barraquinhas que vendem camisetas de rock. Oh, não – não estava te seguindo, nem pense nisso! Vi você de longe, segui com o olhar, quase deixei minhas compras caírem. Você não sabe quem eu sou mas eu sei que você ri jogando a cabeça pra trás, gosta de andar de mãos dadas com a sua namorada que você quer que todos pensem que é sua amiga e que sua cor preferida é amarelo. A sua namorada aliás é linda, não estou bem certa do nome dela, procurei no seu blog alguma referência e você fala muito de uma Lílian, e desde então para mim a sua namorada se chama Lílian. Eu que gosto de chamá-la de “sua namorada” porque vocês não podem se chamar assim, e eu posso, aqui de longe, saindo com um All Star novo. Sei que você não gosta de All Star, ou que pelo menos não faz o seu estilo, nunca vi você usando All Star, nem ao vivo e nem nas fotos. Você tira boas fotos, ou pelo menos só publica as boas. Foram as suas fotos que me fizeram chegar a você, achei por acaso no Flickr, estava procurando por “solidão”. É estranho, não é?, você não é solitária. Você e a sua namorada trocam olhares são brilhantes e parecem saber tudo uma sobre a outra. Uma vez eu estava atrás de vocês na fila do Subway e vi uma completando os pedidos da outra e sorri sozinho. É bonito, cara, você não faz idéia. Reconheci você pelo corte de cabelo. Desculpe usar tanto “você”, a gente nem fala “você” aqui, mas quando penso em você e na sua namorada quero usar o máximo de letras e palavras possíveis, como se “tu” fosse muito pouco. Então, vou continuar falando “você”, espero que não se importe. Eu noto muito corte de cabelo, já me chamaram tanto de viado por isso, mas tem um segredo que eu preciso contar pra você: nós, guris, notamos roupas, sapatos, cabelos, sobrancelhas, maquiagem, notamos tudo, gostamos de tudo, mas não falamos, nós temos vergonha. Eu acho que o cabelo da Lílian combina muito com o rosto dela, ela tem o rosto magrinho, esse corte de “cogumelo”, acho que é chanel que chamam – eu gosto do visual, mas não posso ser pego com uma revista de moda na mão pra aprender os nomes –, faz com que ela pareça uma bonequinha. E você não parece uma boneca, entende, isso também é muito positivo, que nem parecer uma boneca. Você é grande, alta, é toda bonita. Não que eu pense em você dessa forma, quer dizer, antes de saber da sua namorada eu pensava, vou ser sincero. Sabe como eu sei que ela é sua namorada e não sua amiga? Eu tenho esse amigo, o Rafael. Ele olhava assim para uma conhecida nossa. Um dia ele chegou em mim, acho que até então a gente era mais amigo de ver filme e jogar videogame mesmo, e disse “Cara, eu preciso te falar, eu tô apaixonado pela Ana”. Ele era carinhoso com ela mas nunca chegou a contar, e um dia a Ana se mudou. E eu nunca mais vi ninguém olhar dessa forma pra ninguém até que vi você e a sua namorada. Acho que sou um cara meio romântico e vocês fazem um casal bonito. Mas vou confessar, não consegui me interessar pela Lílian como me interessei por você. Talvez porque a Lílian não tem blog, ou se tem eu não achei, mas creio que não tenha, porque eu teria achado. Você fala tanto o que sente, conta sempre do seu dia e caramba, é tão interessante e estranho que você exponha seus sentimentos pro mundo, de um jeito que até eu, e você nem me conhece!, saiba disso tudo, e mesmo assim não torna público que tem uma namorada. Quero dizer, é a sua privacidade, eu entendo, mas tem tanto amor nos olhos de vocês que é até vulgar esconder. Não que eu ache você vulgar – bem, acho até que acho, sabe, mas não de um jeito errado... não vejo nada de errado em você. Gosto dos seus defeitos de uma forma tão carinhosa que é até espantoso pra mim. Uma ex-namorada minha dizia, aliás, ela ainda diz, somos amigos, é tão doloroso ainda ser amigo dela, que era bom namorar comigo porque eu sou sensível e é raro conhecer um cara sensível, mas acho que eu não chegava a ser tão sensível quanto fico quando leio o que você escreve, quando vejo as suas fotos, quando observo você de longe. Juro que é raro! Já vi você jogando Rock Band no Iguatemi, mas eu estava lá com amigos, nunca ia sonhar que ia ver você lá, você não mencionava Rock Band nos textos. Você joga meio mal, não entenda errado, é bonitinho. É bom ver você com os seus amigos. Já li sobre alguns deles, ou pelo menos eu acho que eram eles. Não sei, eu descobri tanta coisa sobre você, li tanto sobre o que você sente, é como se eu fosse uma dessas pessoas que aparecem naquelas fotos em que vocês comem pizza e e riem e parece que estavam vendo uma maratona de Seinfeld, tem uma foto em que aparece a TV. Sempre que a vejo você parece feliz, mesmo que nem sempre escreva sobre coisas felizes, o que me preocupa, me corta o coração. Você não me conhece mas eu sei como você sorri, quais os seus sapatos preferidos e a tatuagem que tem no ombro esquerdo. Eu não faço parte da sua vida mas você faz da minha, você e a sua felicidade, você e a sua alegria, você e a sua namorada, você e as suas escolhas, você e os seus medos, e acho que nós podíamos ser bons amigos, se chegar a isso um dia. Não sei se você gostaria de mim, por mais que já a tenha visto e lido e sentido não sei como se sente sempre, e não saber às vezes me perturba. Nunca contei de você para ninguém, porque ninguém ia entender – talvez você entendesse, não é irônico? Você não me conhece mas eu conheço e amo você.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Frescuras que me incomodam / Chiclete com Holocausto

1. A Oi/BrasilTelecom invadindo o meu navegador para avisar que a página não foi encontrada. Oras, para isso existem os avisos do próprio navegador, pedindo para verificar o endereço. Por que a Oi/BrasilTelecom se sente no direito de botar uma mensagem da própria empresa para avisar algo que é internacionalmente conhecido como Erro 404? O PC é meu, eu uso o Mozilla Firefox, e são os avisos do Mozilla Firefox que quero ver, porra. Não da Oi. Parece controle da minha internet. Não que não haja, mas prefiro que fique implícito.
2. Pessoas que presumem que você está errado. Exemplo:
"Opa, tenho que comprar Nescau!"
"Mas eu achei que tu não tomava leite."
"E não tomo, ué."
"Mas Nescau não tem leite?"

Caralho. Eu não tomo leite, já declarei que não tomo leite e ainda assim tomo Nescau. Não é possível subentender que eu, ciente da minha condição de não-bebedora de leite, teria me preocupado em saber o que vai no Nescau e, portanto, ao afirmar que preciso comprar Nescau, que sei o que vai no Nescau e que, entre essas coisas, não há leite? Porra.
3. Gente com perfil colorido no orkut. É a morte afetiva pra mim. Por quê? A cor preta não é boa o bastante pra ti? Realmente há necessidade de botar informações desconexas numa combinação duvidosa de cores?
4. Blogs com top commenters. Ok, tirando sites de jogos, eu não poderia me importar menos com os comentários que as pessoas têm a fazer.
5. Gente que acha que All Star não é tênis e que Melissa não é sapatilha/chinelo/sapato. Quero dizer: tudo bem se referir ao objeto como "meu All Star", mas que coisa mais ridícula dizer "não é tênis, é All Star". Como All Star é uma marca de tênis, receio precisar informar que sim, é um tênis e é All Star. Não são coisas mutuamente exclusivas.
6. Uso indiscriminado da palavra "charme".
7. Uso indiscriminado de artifícios para parecer legal. Tipo mensagens e nicks no MSN que gritam "por favor, me pergunte do que isso se trata".

Claro, eu posso ignorar tudo isso. Mas aí não seria Chiclete com Holocausto.

(Tem textos sérios e ficcionais guardados, mas blé.)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Toda vez que eu vejo a palavra “cravado”, no sentido de exatidão, me lembro do professor Adriano. Ele dava História no Mesquita e tinha um chaveiro dos Rolling Stones. Era um cara muito alto, acho que mais de 1,80m ele tinha, tranqüilamente. O professor Adriano era um bom professor. (Eu tenho a mania de chamar certos professores de professor até o fim de nossos dias.) Lembro que uma vez ele estava chamando os alunos para dizer a nota do bimestre e pareceu feliz quando chamou o meu nome e disse que eu havia tirado “nove e meio, e não nove e meio arredondado, mas cravado mesmo”. Eram poucos os alunos que tinham ido bem nas provas. O professor Adriano parecia sempre consternado com isso. Não sei se era porque não sentia que cumpria direito o seu dever, ou se sentia mas ainda assim não conseguia tocar os alunos, ou se era simplesmente porque tinha alunos insuportáveis e incapazes de prestar atenção nas aulas. Ele explicava bem, que isso fique muito frisado, que fique sublinhado três vezes; ele se preocupava em fazer os alunos entenderem os porquês das relações humanas ao longo da história, as razões das explorações. Não admitia que os livros se referissem a um determinado grupo com alguma característica específica e dada como indiscutível. Tinha cara de quem não admitia preconceito. Apesar dos arroubos de impaciência, eu sentia um carinho especial e diferente pelo professor Adriano, não apenas por se tratar de um bom professor — uma figura tão difícil de se encontrar — mas também porque ele havia fracassado miseravelmente, e minha empatia não tem limites. No máximo cinco ou seis alunos viram um pouquinho além da nota que estava no papel. Não que fosse culpa dele. Definitivamente, não era. Talvez nem mesmo essa meia dúzia de alunos atentos tivesse entendido o que o professor queria passar. A gente nunca entende o que os outros querem passar, quando eles querem passar algo.
Ele foi demitido no final do primeiro semestre do meu primeiro ano no ensino médio e naquele colégio. Disseram que quem pediu demissão, na realidade, foi ele. Eu duvido. Nunca acreditei. O Mesquita tem dessas de demitir professores-bons-mas-que-não-andam-na-linha.
Se eu nunca exercer a licenciatura, e que fique registrada a probabilidade, é possível que tenha a ver com o professor Adriano. A experiência do professor que eu presenciei é triste demais para alguém que tem o chaveiro dos Rolling Stones e chorou no fim de Sociedade dos Poetas Mortos.

domingo, 25 de outubro de 2009

How are you today?

Hoje eu estou ótima. Acordei há uns 17 minutos. Antes disso, acordei às nove. Estou terminando um trabalho. Tenho outro pra começar e que provavelmente não vou ter como terminar até amanhã às 11:59. Minhas costas doem. Eu não escrevo aqui há dias - e não tenho escrito nada, também. Thiago me deu uma camiseta de Laranja Mecânica que eu estou usando como um simpático pijaminha. Eu continuo ótima. Não tem nada de especificamente ótimo, tipo “ei, adivinhem só, minha mãe recebeu um aumento de 30% e vai me dar uma mesada de 1000 reais, sem que eu faça nada!”, ou “fui apostar na Mega Sena e não é que ganhei?” ou sei lá o que mais seria especificamente ótimo, porque ganhar dinheiro sem esforço algum não é especificamente ótimo - é ótimo, mas é com esse ótimo que a gente garante os específicos. Ou não. Acho que isso não vai me fazer ter uma boa idéia até as 11:59 de segunda-feira e reproduzir todos os 16 mil caracteres dela até lá - embora isso sempre tenha acontecido quando foi necessário. Eu continuo com raiva dos três caras que apontaram rindo pra um casal de amigos (as in, amigo e amigo) meus e um deles disse “Olha só o que estão fazendo ali mais à frente” como quem diz “Olha lá um monte gigantesco de lixo na nossa frente”. Eu nem sei especificamente o que quero, ou se quero alguma coisa. Não estou revoltada nem triste nem mórbida com isso. Nem sequer estou pensativa. Só... estou. Então, hoje, eu estou. Ótima.

Tive um sonho bonito, com os mesmos personagens daquela história. É estranho que um deles tem o rosto de uma pessoa que eu conheço, mas no mais não se parece em nada com ela. Acho que é o meu cérebro tentando deixar tudo mais estético. Não me lembro direito do sonho, então não sei se devo escrever com ele também. Vou acabar tudo o que tenho que fazer e aí - tenho certeza - os monstrinhos e essas irritantes pessoas que não existem vão se sentir mais confortáveis para me atormentar daquele jeito simpático que só monstrinhos e irritantes pessoas que não existem são capazes.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Autopsicografia, parte I


Insatisfação, insubordinação, rebeldia num geral. A razão para Sirius Black ser um dos meus personagens de, que diabos, todos os tempos é muito clara. Eu até ignoro o bullying e a imaturidade eterna.

Algo grita “isso não tem nada a ver comigo” toda vez que vejo pessoas chegando cansadas do trabalho, detestando cada minuto naquela mesa, fazendo coisas de que não gostam, seguindo carreiras que não lhe servem, conseguindo diplomas que são só uma última e derradeira esperança de aquilo ser a chave para o mundo mágico da felicidade eterna.

Algo grita “isso não tem nada a ver comigo” o tempo todo. Acho que por mais dócil e compreensiva que eu possa ser — mesmo que num geral menos de três pessoas percebam isso, e Espaguete Voador, como eu posso ser dócil e compreensiva — tem dentro de mim um Bear Jew que precisa muito usar o taco de baseball na idéia de passar a vida inteira atrás de um balcão de farmácia dando dicas de esmaltes e não vendo a hora pra chegar em casa e dormir.

Eu encaro as minhas opções mais óbvias — passar em Letras, ser uma aluna questionável e trabalhar numa livraria — como meros e reles substitutos do que eu realmente devia estar fazendo, que... bem. É complicado. Não é só escrever e ficar examinando as pessoas de perto e de longe. É algo além que ainda não descobri o que é — mas sei que isso é uma grande parte. Acontece que eu sou exatamente o tipo de pessoa que teria uma moto gigante e viveria de fazer coisas que são reprováveis, mesmo que quem reprova nunca saiba ao certo por quê. Analisar metodicamente, pensar antes de fazer e computar os resultados num organizado laptop é tão antônimo de mim quanto — parei pra pensar e, numa análise metódica, de fato, não tem uma comparação que fique à altura.

Sirius was a brave, clever, and energetic man, and such men are not usually content to sit at home in hiding while they believe others to be in danger.

domingo, 18 de outubro de 2009

Penso como um gênio, escrevo como um autor distinto, falo como uma criança.

Nunca achei que ia me identificar tanto com outro autor morto como me identifico com o Fernando Pessoa, mas caramba, Nabokov! Como tu conseguiu?